Discussão filosófica sobre o tempo Manaus, Amazonas

A discussão filosófica sobre o tempo é mais complexa do que só a constatação da dificuldade de discutirmos a temporalidade. O que e o passado? Leia um pouco mais o que o passado nos representa.

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Discussão filosófica sobre o tempo

HISTÓRIA E TEMPO

Aqui está o grande nó da história: trata-se de uma ciência que se dedica ao estudo dos eventos temporais, já ocorridos e, portanto, do passado; mas faz isso no presente, pois o passado não tem sentido em si mesmo, ele interessa no presente. O problema é que isso que chamamos de presente é algo muito dinâmico que num processo avassalador arremessa tudo para o passado. E aqui está nosso problema: O que é o passado? Onde ele está? Onde pode ser encontrado? Existe passado? Podemos ter acesso a ele? E o presente, onde se localiza? O que é o presente?
A discussão filosófica sobre o tempo é mais complexa do que só a constatação da dificuldade de discutirmos a temporalidade. Por isso não vamos responder todas estas indagações, mas refletir sobre algumas idéias pré-concebidas que podem dificultar a compreensão tanto da história como da memória e, por extensão, do patrimônio. E com isso produzir não a elucidação, mas a confusão, pois idéias pré-concebidas transportam em seu âmago o vírus da irracionalidade e da mesmice, o que, por sua vez, leva à negação da capacidade reflexiva, da capacidade investigativa. Mata a pesquisa; mata o progresso.
Neste ponto somos tentados a dizer que o passado não existe! Pelo menos não da forma que cotidianamente o senso comum se refere a ele: como algo concreto esquecido em algum “lugar” do tempo. E por estar lá, essa entidade, chamada passado, precisaria da história para ser resgatada, como se fora algo quase perdido. O fato é que não temos acesso ao passado. Não temos como manuseá-lo. Embora pareça estranha a afirmação da não existência concreta ou da inacessibilidade do passado, podemos comprovar essa afirmação com alguns exemplos: quem é capaz de “desderramar” uma xícara de café derramada sobre a mesa? O que podemos fazer é limpar a sujeira. Encher outra xícara. Observar a mancha sobre a toalha. Mas o fato acontecido não tem como “desacontecer”.
Alguém, com uma fotografia na mão, poderia nos dizer: “eis aqui uma evidência do passado”. Mas isso não responde ao nosso problema. O que é a fotografia, se não uma afirmação da inacessibilidade do passado? A imagem da fotografia apenas comprova nossa firmação de que ele não existe, não está ao nosso alcance. Aquilo que é retratado na fotografia pode ter existido, mas já não existe mais.
Com isso podemos reafirmar: não temos acesso ao passado. Ele é intangível, intocável, irremovível, inacessível. Por isso, também, está equivocada a afirmação de que se pretende “resgatar” a memória ou qualquer outra expressão dessa natureza. O máximo que temos, do passado, não é o passado, mas as lembranças. E a lembrança é algo que possuímos sem possuir. É algo que temos de algo que não possuímos e nem temos como resgatar. A lembrança “é nossa primeira e mais fundamental experiência do tempo” (CHAUÍ, 2005, p. 138). Nas palavras de Marc Bloch: “O passado é, por definição, um dado que nada mais modificará. Mas o conhecimento do passado é uma coisa em progresso, que incessantemente se transforma e aperfeiçoa” (BLOCH, 2001, p. 75).
E agora, pelo menos hipoteticamente admitamos que não exista passado, pelo menos como algo com o quê podermos estabelecer contato direto. Pelo menos não como popularmente nos referimos a ele: algo mensurável, como se fora uma entidade concreta com a qual poderíamos fazer contato em todo instante que assim desejássemos. Sendo assim, somos levados a admitir, também, a inacessibilidade em relação ao presente. Aquilo que chamamos de presente é um furacão que arremessa tudo para o passado; e já que não temos acesso ao passado... não temos como manter o presente
O que existe, ou o que temos, então? O futuro? Mas como falar do futuro se ele ainda não chegou, e pode não se concretizar? Pelo menos, e isso com certeza, não se realizará da forma como foi imaginado! Dessa maneira, também não possuímos o futuro, não temos acesso a ele. Ou seja, não temos passado, pois o que ocorreu não volta mais, não mais existe. Não temos futuro, pois ele ainda não chegou e pode não ser o que foi idealizado. E o presente é esse turbilhão de possibilidades caminhando em direção ao passado, fazendo com que o existente se transforme rápida e constantemente. O presente, como disse M. Bloch, é “um ponto minúsculo e que foge incessantemente; um instante que mal nasce, morre”.
O que nos sobra, então? Apenas possibilidades; as possibilidades das conexões. Apenas possibilidades que não temos como comprovar, antecipadamente, qual delas se concretizará. E depois de ocorridas não temos mais como interferir ou alterar; nem como resgatar, pois fogem ao nosso alcance, distanciando-se num passado irrecuperável. E outra vez as palavras de Bloch, ilustram a inacessibilidade do passado: “as características mais visíveis da informação histórica... foram muitas vezes descritas. O historiador, por definição, está na impossibilidade de ele próprio constatar os fatos que estuda” (BLOCH, 2001, p. 69), pois seu objeto de estudo é inacessível.
Observemos que estamos com um sério problema para continuar estudando história e com um problema ainda mais sério em relação à memória e ao patrimônio, que são marcas humanas em um tempo determinado, tentando ser uma representação daquilo que já foi vivido, mas que é passado para aqueles que edificam ou destacam o evento com o elemento patrimonial ou memorável. Se a história estuda o passado e ele não existe ou, pelo menos, não temos acesso a ele, o que é isso que chamamos de Patrimônio? Em que consiste a Memória? Como estudar História? essa indagação é pertinente principalmente quando temos presente a afirmação de M. Bloch, dizendo que
a própria idéia de que o passado, enquanto tal, possa ser objeto de uma ciência é absurda. Como, sem uma decantação previa, poderíamos fazer, de fenômenos que não têm outra característica comum a não ser não terem sido contemporâneos, matéria de um conhecimento racional (BLOCH, 2001, p. 52)
Antes de tentar uma resposta, ainda cabe esta afirmação: Por mais que pareça contraditório, estudar história é voltar no tempo. Isso é feito de diversas maneiras quando o pesquisador entra em contato com suas fontes documentais; o estudo da história se faz a partir de teorias. Mas esse é um contato indireto. A teoria, fonte, o documento, a informação não é o fato ou o processo gerador do fato. O acesso ao passado se dá, diz Bloch, por meio de “vestígios”. O historiador, para fazer história, lança-se na difícil – senão impossível – tarefa de reconstruir o passado, sabendo que ele é irreconstruível. Mas o historiador fará isso, sempre como uma “releitura”:
A experiência da releitura é apenas um exemplo, entre muitos, da dificuldade, senão da impossibilidade, de reviver o passado tal e qual; impossibilidade que todo sujeito que lembra tem em comum com o historiador. Para este também se coloca a meta idéia de refazer, no discurso presente, acontecimentos pretéritos, o que, a rigor, exigiria se tirassem dos túmulos todos os que agiram ou testemunharam os fatos a serem evocados. Posto o limite fatal que o tempo impõe ao historiador, não lhe resta senão reconstruir, no que lhe for possível, a fisionomia dos acontecimentos. Nesse esforço exerce um papel condicionante todo o conjunto de noções presentes que, involuntariamente, nos obriga a avaliar (logo a alterar) o conteúdo das memórias (BOSI, 1998, p. 59. Grifo no original).
Devemos notar, além disso, que não temos como voltar pessoalmente ao passado. Dessa forma, mesmo o acesso às fontes históricas ( a fotografia, como dissemos acima) nos proporciona uma visão parcial do passado, pois se trata de um acesso indireto. Olhamos para o passado pela mediação de nossas fontes com o recurso de nossas teorias. O que temos do passado não é o passado, mas os documentos, as fontes, a memória, os monumentos..., que nada mais representam do que uma versão e não o passado mesmo. Por isso podemos dizer que a história é uma interpretação dos processos e dos fatos estudados, mas sobre os quais não temos mais acesso.
Mesmo os documentos históricos, os monumentos ou todos aqueles elementos que a historiografia tradicional valorizava, passam a ser revisitados.
Os documentos deixaram de ser considerados apenas o alicerce da construção histórica, sendo eles mesmos entendidos como parte dessa construção em todos os seus momentos e articulações. Passa a existir a preocupação em localizar o lugar de onde falam os autores dos documentos, seus interesses, estratégias, intenções e técnicas (BRASIL, 1999, p. 45)
Portanto a história não é um resgate do passado, como se fora algo perdido, mas é sempre uma interpretação de algo a que não se tem mais acesso. O que dizemos do processo que produziu um fato é sempre uma interpretação, e não uma reprodução do processo ou do fato. Temos a pretensão de descrever, mas sempre será uma descrição interpretativa. E, ao interpretar algo, estaremos dando a nossa versão. Pois se trata, sempre, de um ponto de vista situado, avaliativo, de alguém que está limitado a outro tempo e espaço, circunscrito a outros valores. E, no caso do pesquisador, fundamentado em uma teoria a qual tem o poder de direcionar os olhos do pesquisador. Entretanto não podemos nos esquecer que, como afirma Bloch, “Os fatos humanos são, por essência, fenômenos muito delicados, entre os quais muitos escapam à medida matemática” (2001, p. 54). Essa constatação acrescenta um problema ao historiador ou é o problema do historiador e para a teorização da história.
Com base nisso podemos dizer que, se não temos meios de voltar ao passado, mas temos necessidade de visitá-lo, nós o buscamos não em si mesmo, pois dessa forma ele é inacessível, mas por meio dos documentos históricos, do patrimônio histórico e da memória histórica ou de tudo que se caracteriza como fonte histórica. Buscamos o passado, inacessível, pela mediação de nossas teorias. E essas, paradoxalmente, são suportes e entraves. Suporte porque ajudam a nortear o trabalho do pesquisador; mas, ao mesmo tempo, limitam o direcionamento da pesquisa. Toda pesquisa, é direcionada e norteada pelos fundamentos da teoria que sustenta a pesquisa.

Referências
BLOCH, Marc, Apologia da História ou o ofício do historiador. Rio de Janeiro: Zahar. 2001.
BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: lembrança de velhos. 5 ed. São Paulo: Cia das Letras, 1998
BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais: ensino Médio: ciências humanas e suas tecnologias. MEC. Brasília: MEC/Secretaria de Educação média e Tecnológica, 1999
CHAUÍ, M. Convite à filosofia. 13 ed. São Paulo: Ática. 2005.
ARANHA, Maria L. Arruda; MARTINS, Maria Helena P. Filosofoando: introdução à filosofia. 2 ed. São Paulo: Moderna, 1997
LE GOFF, Jacques. História e Memória. 4 ed. Campinas: ed. Unicamp. 1996.
ORIÁ, Ricardo. Memória e Ensino de História, in BITTENCOURT, Circe (org). O Saber Histórico na Sala de Aula. 5 ed. São Paulo: Contexto. 2001

Neri de Paula Carneiro – Mestre em Educação
Filósofo, Teólogo, Historiador
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NERI P. CARNEIRO

Concluí mestrado em Educação (UFMS), especialização em Educação (UNESC-Cacoal-RO), especialização em Metodologia do Ensino Superior (UNIR-RO), especialização em Metodologia de Leitura Popular da Bíblia (CEBI-RS). Concluí os cursos de graduação em Filosofia, Teologia, História. Sou Professor de História e Filosofia pela rede pública estadual (R. Moura-RO); professor de Filosofia na Faculdade de Pimenta Bueno - FAP (Pimenta Bueno-RO), na Faculdade de Rolim de Moura - FAROL (R.Moura-RO), na UNESC (Cacoal-RO). Radialista e colaborador em jornais da região de Rolim de Moura – RO.
Publiquei alguns livros de circulação regional além de artigos em revistas científicas de Rondônia.

Meus textos são publicados regularmente no jornal Folha da Mata (Rolim de Moura-RO) nos blogs:http://falaescrita.blogspot.comehttp://ideiasefatos.spaces.live.come no sitewww.webartigos.com

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