Análise clínica da psicose Macapá, Amapá

A clínica da psicose é uma clínica possível, porém exige muita cautela, pois é como percorrer a beira de um abismo profundo. Por isso, o diagnóstico clínico é fundamental no início do tratamento para se direcionar a condução da análise. Veja mais no artigo abaixo.

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Análise clínica da psicose

Neste artigo disponho a fazer uma discussão sobre a clínica da psicose; clínica essa possível de ser trabalhada e que é demandada pelo sujeito que se apresenta no setting terapêutico. Articulando a teoria com um caso clínico atendido durante um estágio supervisionado, estarei apontando a importância do diagnóstico para que se conduza a terapia analítica, o que é psicose, e a conduta ética do psicólogo diante dessa clínica.

Um sujeito, que aqui vou chamar de Soares, de 42 anos de idade, procurou a clínica-escola da universidade Católica com a demanda de tratamento psicológico, segundo ele tinha o diagnóstico de TDA (Transtorno de Déficit de Atenção), e a doença lhe trazia muitas dificuldades, “um pacote” como dizia: depressão, fobia social, baixa autoestima e autoconfiança, dificuldade de concentração e memorização, e dificuldade de relacionamento. Ele se auto diagnosticou ao ver uma entrevista com um grupo de TDAs e lendo sobre o assunto na internet: “ Quando vi a entrevista, pareciam que falavam de mim, exatamente como eu me sentia. Sem motivação pra fazer nada, deprimido, inseguro, dependente, com dificuldade pra manter vínculo com as pessoas... ”(sis). Procurou alguns psiquiatras que contestavam a doença, até que encontrou um que acreditava nesse tipo de transtorno e com quem passou a fazer tratamento farmacológico, passou a tomar Ritralina e antidepressivos.

Durante algumas sessões com Soares, algumas frases suas foram decisivas para se pensar o diagnóstico de psicose, apesar de ser um sujeito bem articulado e parecer estável. Então, fui conduzindo a análise com bastante cuidado, deixando o falar bastante sobre o TDA, que era o que ele trazia. Sem levantar questões mais complexas para implicá-lo diretamente na sua queixa, como se faz no tratamento da neurose.

Segundo Quinet (1993), para iniciar o tratamento psicanalítico é necessário praticar primeiramente o que Freud chamou de tratamento de ensaio, ou entrevistas preliminares, se preferirem Lacan. Uma das principais funções desse tratamento de ensaio é fazer um diagnóstico do paciente em relação a sua estrutura clínica: neurose, perversão ou psicose. Pois é o diagnóstico diferencial que irá orientar a condução desse tratamento.

A busca desse diagnóstico se dá no registro do simbólico do sujeito, onde estão articuladas as suas questões fundamentais. A estrutura do sujeito é construída na sua passagem pelo Complexo de Édipo, em que há a inscrição do Nome-do-Pai, do Outro da Lei, na relação do sujeito com o mundo e diz não a sua submissão total ao desejo materno, permitindo a produção de uma significação fálica para o sujeito barrado pela falta.

Segundo Moreira(2004), é através da cena edípica que o sujeito vai se estruturar e organizar o seu viver, sobretudo em torno do seu posicionamento diante da angústia de castração, na maneira como ele se posiciona diante do Outro. Portanto, o diagnóstico estrutural é feito pelo modo como o sujeito negou a vivência da castração.

O sujeito, ao passar pelo complexo de Édipo, pode recalcar, desmentir ou foracluir a angústia da castração. O neurótico recalca sua angústia que retorna no simbólico sobre forma de sintoma, ou outras manifestações do inconsciente como sonhos, atos-falhos e chistes. O perverso nega a castração desmentindo a angústia, mas a conserva no simbólico e esse tipo de retorno no simbólico se cristaliza sobre forma de fetiche. Já para o psicótico, a castração não existe, ela foraclui, prescreve, passa da hora de se inscrever e há uma cisão com a realidade e com o as barreiras do limite entre o sujeito e o outro. Porém, essa realidade e esse limite lhe são impostos em forma de alucinações, delírios, automatismo mental etc.

Segundo Freud (1894), existe na psicose um mecanismo de defesa, muito mais forte do que o de qualquer neurose, que é do “eu rejeitar”, o sujeito recusa uma representação que lhe é insuportável, como se ela jamais tivesse alcançado seu eu. Ele rejeita a representação incompatível com seu eu, projetando-a no mundo externo. Aquilo que é foracluído pelo psicótico no simbólico tem seu retorno no real de forma mortífera. A foraclusão é um mecanismo específico do psicótico para lidar com a angústia da castração; assim como o recalque é para o neurótico e o desmentido é para o perverso. O que marca a diferença entre a psicose e a neurose é que a realidade rejeitada (foracluida ou recalcada) retorna o tempo todo no real na psicose para tentar organizar o psiquismo do sujeito.

De acordo com Lacan no Seminário III (1956), a fórmula da prática psicanalítica com o psicótico é “introduzir o sujeito”. Introduzir o sujeito na sua lógica inconsciente, implicar o sujeito na sua história, no seu gozo e no delírio que ele constrói para se sustentar e para conter-se. Isso implica em deixá-lo falar da vida, onde ele se faz protagonista e que revela sua relação com o outro, dá-lo a chance de vincular seu passado com seu presente e revelando a fixação do seu gozo onde se condensa seu sintoma.

Lacan (1956) afirma que a estrutura clínica equivale à estrutura da linguagem, que se estabelece à medida que o sujeito vai fazendo sua passagem pelo Complexo de Édipo, marcando sua entrada no mundo simbólico e no mundo dos significantes. O sentido da análise é atribuir para o sujeito significados aos significantes que marcaram sua história e seu discurso. E para que o sujeito atribua significado aos seus significantes, é necessário que ele faça sua entrada no simbólico e assim ordene seu mundo interior com o mundo externo. Essa entrada na ordem simbólica dar a armadura da estrutura clínica do sujeito.

A psicose é uma estrutura clínica bem específica e determinada por sua lógica e seu rigor próprio. Estrutura essa marcada pelo Complexo de Édipo, e que revela no discurso do sujeito um modo bem particular de lidar com o real, com o imaginário e com o simbólico; desvendando a forma como ele se relaciona com os seus significantes. Para que o sujeito se constitua enquanto sujeito da linguagem, o Édipo é o preço que se paga, portanto ele está condenado a suportar a falta do falo, como a castração simbólica que impede que a sua verdade nunca seja dita por inteiro. Não pagar esse preço, equivale ao campo da psicose.

O psicótico desconsidera completamente o Nome-do-Pai, ou seja, a lei simbólica, o que implica no não atravessamento do sujeito pela fase edípica, colocando em causa toda sua rede de significantes. O sujeito não é, portanto, submetido à castração simbólica, a significação fálica, e como conseqüência o significante que traz a significação sobre seu sexo, ficam sem referências. “Quando jovem eu achava normal ter relacionamentos sexuais tanto com homem, quanto com mulher, pra mim não tem diferença...” dizia o paciente do inicio do texto. É como se a questão da homossexualidade estivesse muito mais ligada a uma identificação imediata com o outro do mesmo sexo, do que com uma mera opção sexual.

A possibilidade do psicótico de se nortear na realidade está nas significações que ele constrói sobre ela. Pela identificação imediata que o psicótico faz com o Outro, o tomando como espelho no registro imaginário, já que lhe faltam referências simbólicas que lhe diga quem ele é. Lacan(1956) compara a estrutura psicótica como a estrutura de uma mesa com apenas três pés, faltando-lhe estabilidade segura. O psicótico busca identificações imaginárias que lhe sirva de bengala e lhe possibilite maior estabilidade, é o que Soares fez ao se diagnosticar como sendo um TDA, depois como sendo homossexual e por ai vai, identificações que o permitia dizer de si mesmo.

A fala do psicótico está sempre muito mergulhada num certo desespero, e a impressão que se tem é que nenhuma intervenção psicológica faz nascer o desejo nesse sujeito, o faça sair de si mesmo na direção do outro. Assim descreve Vasse(1983) em seu livro: “O peso do real sofrimento”. As sessões psicoterápicas com o psicótico são marcados por um certo vazio indefinido e inalcançável da repetição. Assim, qualquer diálogo que o analista tente manter tende a fracassar, o discurso, as imagens e as tentativas de mediação ficam sem efeito. O psicótico é um corpo sem palavra, pois lhe falta o registro do simbólico.

O trabalho na clínica da psicose leva o analista ao um caminho de angústia, diante do silêncio sem eco desse sujeito. E o analista se torna obrigado a renunciar ao seu saber, ao que sente e ao que imagina, projetando a si mesmo em um corpo sem palavra. A clínica da psicose é um terreno mal definido, por isso exige bastante cautela, é como se o analista percorresse a beira de um abismo onde a palavra desapareceu. Porém, é nesse abismo que a palavra pode se dizer no lugar onde nada pode ser dito do sujeito, nem do Outro. Onde tudo se perde, por justamente nada faltar.

O analista deve sempre buscar o equilíbrio entre o tudo e o nada, onde o sujeito psicótico, por ter nascido fora do desejo, não é ser de lugar na palavra, e assim não se vê como parte de um tempo, de um espaço, de um corpo. “Não me sinto parte de nada, nem da minha família, nem do mundo. Não me apego a ninguém, não sei o que é sentir saudade, porque nunca sinto falta de ninguém...” dizia o nosso paciente.

O psicótico vive no pensamento do Outro, num imaginário descolado do real, não vive no seu próprio corpo. Seu corpo é privado da palavra, é um corpo sem sujeito ou sujeito sem corpo (Vasse, 1983). Essa denegação do corpo é determinada pela foraclusão do simbólico, o pai do psicótico é pensado por ele como um pai tirano, superegoíco, um ser de razão incontestável, um Outro absoluto. E assim, o psicótico encarna a condição de uma vida que só se pode dizer através do sintoma, pois não se ver enquanto sujeito. O objetivo de qualquer terapia psicanalítica é fazer com que o paciente desfie os fios de seu sintoma, tornando-o responsável e sujeito de direito.

Geralmente, o psicótico chega ao consultório encaminhado por um terceiro, mas se ele continua indo á análise cabe ao analista identificar qual é a sua demanda enquanto sujeito, oferecendo-lhe a oportunidade de falar o que quiser e se quiser, sem pressupostos. Meu paciente em análise, Soares, muitas vezes parecia estar ali para que eu, enquanto psicóloga, confirmasse seu TDA. Suas sessões eram semanais, porém ele vinha uma e desmarcava a outra. Percebi que era o tempo que ele precisava para “elaborar” a sessão anterior, era o seu tempo lógico. Tentei conduzir o caso durante um semestre com muita sutileza, respeitando até mesmo, esse seu tempo próprio para a análise.

A formulação da demanda pode ser feita por duas vertentes, segundo Antonio Quinet (1993), pelo simbólico ou pelo real; mesmo que geralmente essas duas vias se misturem. O psicótico pode trazer questões muito semelhantes as do neurótico: Estou vivo ou morto? Sou homem ou mulher? Mas é muito comum ele chegar ao analista com uma significação dessas que lhe “caiu sobre a cabeça” com bastante peso. As questões do neurótico se fazem sobre o desejo do Outro, sob forma de repetição ou sintoma. Na psicose, a resposta se faz muito mesmo antes da questão, e o sujeito busca na análise a confirmação e o testemunho do analista; ou que ele faça barra o gozo do Outro que o persegue, que fala na sua cabeça, ou que o olha na rua. Como se esse Outro pudesse ser barrado pela porta, ou pelas paredes do consultório, por algo concreto.

Quando nos referimos à clínica da psicose, nos referimos à transferência, não diferente de qualquer outra clínica, já que existe uma relação com o saber. Na análise com o psicótico, o saber equivale ao gozo, ou seja, o sujeito do suposto saber equivale ao sujeito do suposto gozar. O psicótico se vê como objeto do gozo do Outro, e este tudo sabe a seu respeito, portanto a suposição que existe para o neurótico, para o psicótico é uma certeza. Ele tem a certeza do saber do Outro que goza sob ele.

Lacan (1956) propõe que o analista use da técnica da manobra de transferência na clínica na psicose, com o objetivo de barrar o gozo do Outro que invade o psicótico, e para fazer isso é necessário que o analista saiba exatamente qual o lugar que ele situa para o sujeito. A postura analítica diante da psicose deve ser de “dizer não” ao gozo do Outro, instaurar o psicótico como sujeito e não como objeto, para que assim o significante que lhe falta advenha. Por mais que isso seja paradoxal, já que justamente é a falta do significante Nome-do-Pai que é condição da estrutura psicótica. Buscar emergir no sujeito o significante que lhe falta deve ser um princípio do tratamento psicanalítico do sujeito psicótico.

A clínica da psicose se faz ao saber escutar aquilo que o psicótico manifesta na sua relação com o significante, o que Lacan, no Seminário III, chamou de secretariar o alienado. Que seria testemunhar a relação do sujeito com o Outro, porém, não aceitando a posição desse grande Outro gozador em que o psicótico coloca o analista. A própria transferência pode se tornar na clínica uma possibilidade em direção ao tratamento, no sentido de esvaziar o gozo desse Outro, torná-lo barrado, provocar a falta.

É certamente uma ousadia tentar falar da clínica da psicose em um artigo, já que o tema é extenso e abre portas para diversas discussões. Porém, é de grande valia discorrer sobre o tema, e também um grande desafio para a formação de qualquer psicólogo diante da experiência clínica, pois, não escolhemos os clientes que baterão na porta de nossos consultórios, mas precisamos conhecer da teoria que irá nortear a condução do caso, a noção de sujeito dessa teoria, e muito mais, do próprio sujeito para aceitar ou não tratá-lo em análise.

Bibliografia:

FREUD, S. "As Neuropsicoses de Defesa", 1894; in Ed. Stand. Bras.. vol. III, R.J.: Imago, 1976.

 MILLER, Jacques Alain. “Lacan elucidado: Palestra no Brasil/ Jacques Alain Miller” – Rj: Jorge Zahar ed. 1997.

MOREIRA, Jaqueline de O. “O Édipo em Freud: O movimento de uma teoria”. Psicologia em Estudo - Maringá, v. 9, n. 2, p. 219-227, mai./ago. 2004.

QUINET, Antonio. “As 4 + 1 Condições da analise”. RJ: Jorge Zahar. Ed. 1993 (Coleção Campo Freudiano no Brasil).

 QUINET, Antonio. “Teoria e Clínica da Psicose”. RJ: Jorge Zahar. 2ºEd – Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2003.

 VASSE, Denise. “O peso do real sofrimento” . 1983.

Débora Gabriele de Jesus Tolentino Psicóloga

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