Analisando os preços dos Alimentos Orgânicos Natal, Rio Grande do Norte

O presente artigo traz uma análise sobre os preços dos produtos orgânicos. O preço dos produtos orgânicos merece uma discussão que abarque todas as variantes envolvidas nesse processo produtivo. De forma simplificada, alega-se que o valor agregado - que pode variar de 20 até 100% a mais para os produtos orgânicos em relação aos de origem convencional.

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Adriana de S. Mendes
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Analisando os preços dos Alimentos Orgânicos

Publicidade O preço dos produtos orgânicos merece uma discussão que abarque todas as variantes envolvidas nesse processo produtivo. De forma simplificada, alega-se que o valor agregado - que pode variar de 20 até 100% a mais para os produtos orgânicos em relação aos de origem convencional - tem uma das causas na lei da oferta e da procura. Frente à baixa demanda, quando comparado aos alimentos convencionais, o produto orgânico ainda não se faz competitivo o suficiente no grande mercado.
Porém, outros aspectos relativos à comercialização precisam ser analisados nesse contexto.

A comercialização dos produtos orgânicos tem se mostrado o maior desafio para os agricultores familiares e para as associações de produtos orgânicos no Brasil. O confronto entre o grande circuito (o de supermercados) e os circuitos curtos (o de feiras e vendas diretas) ainda é um desafio.

O grande circuito impõe ao agricultor barreiras à entrada, como a incorporação de serviços aos produtos (uso de embalagens plásticas ou isopor), padronização dos produtos, contratos regulares de entrega (nem sempre possíveis se tratando da sazonalidade dos alimentos in natura), a não remuneração do produto não comercializado, entre outras. Além disso, faz uso de margens altas, que visam a aumentar sua lucratividade, mas que dificultam as vendas e elitizam o consumo de alimentos orgânicos.

O sobre-preço justo que o alimento orgânico merece ter deve ser compreendido dentro da ótica dos benefícios ambientais e sociais que ele gera. Esse acréscimo deve ser repassado ao agricultor para permitir que ele se consolide na produção. De outra forma, tende a se fortalecer o chamado industrial agriorganic business. Há exceções de supermercados em Santa Catarina e Rio Grande do Sul que compreenderam a necessidade de estimular o movimento orgânico e criaram situações mais convenientes para o produtor e o consumidor deve ser informado dessas práticas, como forma de marketing social.

O supermercado representa uma possibilidade legítima e importante de veiculação dos orgânicos, mas é preciso ter em mente a necessidade da diversificação dos circuitos. Essa condição de diversidade permitiu o fortalecimento a Agricultura Orgânica em muitos países e só ela pode garantir a soberania dos agricultores familiares orgânicos, especialmente os que trabalham com o valioso conceito de produção local de alimentos. O supermercado permite que uma fatia de consumidores urbanos descubra o produto orgânico e o torne mais conhecido, mas é preciso igualmente fortalecer e estimular o mercado mais restrito, o do circuito curto de lojas e feiras de produtos naturais.

As vendas diretas e as feiras são propostas eficazes para o fortalecimento de associações de agricultores familiares orgânicos. Há que se considerar, contudo, os empecilhos para que alguns agricultores participem desse circuito, como a distância dos centros consumidores, as más condições das estradas e a exigência, tanto de habilidade para o comércio quanto de tempo disponível do agricultor para a venda. É importante ter em conta o fato de que esse circuito é voltado para um consumidor já sensibilizado para a compra de alimentos orgânicos, dificultando a ampliação do número de envolvidos. Por outro lado, se fortalece um circuito capaz de afinar relações com o público, sensibilizando-o ainda mais para a proposta da agricultura orgânica e sustentável. A ausência de intermediação permite, também, uma maior apropriação, pelos agricultores, dos resultados, em termos de renda, de seu trabalho.

O preço não deve se constituir em um empecilho para o consumo dos orgânicos, pois a venda direta através das cestas e feiras, as cooperativas de compras e vendas e as associações de consumidores orgânicos mostram alternativas viáveis de aquisição dos alimentos de qualidade e conseguem estimular uma discussão fértil sobre o movimento orgânico, o consumo consciente e a economia solidária.

Ressalta-se também o papel decisivo que o consumidor passa a ter em toda essa discussão de consumo consciente. A sua opção de compra passa a ter um profundo significado ambiental, social e político e ele passa a ser um ativo componente do processo e revitalização do rural a partir do mundo urbano.

A produção orgânica exige maior envolvimento de mão-de-obra e ao adquirir esse alimento o consumidor passa a contribuir para o fortalecimento e viabilidade da agricultura familiar no meio rural. Essa é a contribuição social dos consumidores conscientes que, ao buscar produtos orgânicos, têm um papel decisivo para que essa mudança ocorra.

Na verdade, os alimentos são a única mercadoria que o consumidor exige que seja barata e espera que tenha qualidade. No mercado tudo que tem qualidade superior custa naturalmente mais. Como menciona o jornalista Michael Pollan, o preço barato de uma refeição nunca leva em conta o custo para o solo, o petróleo e os gastos energéticos para produzir tais alimentos, a saúde pública (na forma de obesidade e doenças cardiovasculares), do meio ambiente, no bem-estar dos trabalhadores e dos próprios animais. Mas na verdade, pensando melhor, o contexto atual me leva a crer que a maioria dos consumidores não exige qualidade nos alimentos porque não sabe o que está comendo e como isso influencia em todos os aspectos acima mencionados. Também é fato que o distanciamento da natureza e o ritmo de vida urbano contribuem para essa condição de "consumidor anestesiado".

Ao adquirir o alimento orgânico, o consumidor contribui para a promoção da sua saúde, para a qualidade de vida das futuras gerações e para a preservação dos ecossistemas naturais e essa contribuição tem um valor inestimável. Nesse contexto, a pergunta que surge é: qual o real valor de um alimento barato que promove a poluição ambiental, a perda da biodiversidade, a exclusão social e que contribui para o aumento das doenças?

∗Dra. Elaine é nutricionista, especializada em Nutrição Antroposófica pela Associação Brasileira de Medicina Antroposófica, mestre em Agroecossistemas pela UFSC e doutoranda em Sociologia Ambiental pela mesma universidade. É consultora e ministra aulas em diversos cursos de Agricultura Orgânica e Biodinâmica no país e é autora de dois livros: Alimentos Orgânicos e Trofoterapia e Nutracêutica, um livro com dieta e orientações nutricionais.

Para aprofundar o conteúdo consulte a bibliografia indicada ou contate a autora pelos emails: elainepeled@gmail.com / elaine@portalorganico.com.br

Nota: É proibida a reprodução deste texto em qualquer veículo de comunicação sem a autorização expressa do autor. Só serão permitidas citações do texto desde que acompanhadas com a referência/crédito do autor.

Fonte: ∗Dra. Elaine de Azevedo

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